No tempo de D. João V

Desafiados a caracterizar a figura de D. João V e o seu tempo, os alunos de História A do 11º ano «meteram-se na pele» de cada um dos grupos da sociedade estratificada do século XVIII e recriaram os diferentes olhares do Clero, da Nobreza e do Terceiro Estado sobre a figura do rei.

É esse exercício de imaginação histórica que apresentamos na primeira publicação deste blogue, que será dedicado essencialmente a partilhar trabalhos dos alunos do nosso Externato.

Um encontro entre o Rei D. João V e um monge

(Por Maria Alves e Marta Belo)

Dirigi-me à grande Sala de Oração: a mais bela divisão do nosso Mosteiro. O nosso amado Rei-Sol Português, D. João V, estava prestes a chegar aos nossos aposentos para uma visita. Era raro o rei visitar os aposentos de membros do Baixo Clero e, sendo um humilde monge, eu não estava nada à espera de tal coisa. Abri a porta de madeira de carvalho da Sala de Oração e pude logo notar o quão apinhada esta estava: nervosos camponeses vestiam as melhores roupas que tinham e apressados monges preparavam e arrumavam a sala para a oração que iríamos orar. Eu e o resto do mosteiro havíamos convidado todos os camponeses católicos para vir ver o nosso adorado rei.

«O rei está a chegar!», avisou um outro monge, nervoso. «E quer reunir todos os monges para nos dar uma palavra». Ao ouvir tal coisa, apressei-me para junto do resto dos monges, quando o belo e amado rei se acercou de nós. Todos fizemos uma vénia perante tal preciosidade.

«Vim aqui para vos comunicar, caros monges, que irei ordenar construir, aqui na vossa humilde terra, uma nova igreja. Decidi que vós mereceis tal cousa, visto que o número de convertidos à religião de Deus tem aumentado». D. João V discursou, recebendo um aceno de cabeça como resposta.

«Agradecemos, Vossa majestade», agradeceu um monge. Tomei a liberdade de convidar D. João V para se nos juntar numa breve oração conjunta com alguns membros do Terceiro Estado – nomeadamente da Burguesia – e, para meu encanto, ele aceitou.

Nossa majestade, apesar de rígido, é uma figura de enorme poderio à qual todos devemos respeito e obediência. O nosso Rei-Sol garantiu a Sua presença para estar com simples e humildes monges, dedicou o Seu precioso tempo a humildes que nunca sequer haviam pensado em Lhe pôr a vista em cima. Agradeço em nome de todos o modo como o nosso Rei se dedica tanto aos seus súbditos!

O amor de um Nobre

(Por Daniela Santos e Margarida Silva)

Minha amada Condessa Julieta D’Ávila,

Escrevo para vos dizer que os planos das rotas comerciais correram dentro do previsto. O tráfico de escravos no mercado negreiro e as novas mercadorias deixaram-me mais poderoso e influente junto do excelentíssimo João V. Graças às tenças que recebo e dos impostos cobrados ao povo pelas terras cultivadas, tenho agora os atributos monetários necessários e suficientes para uma nova vida luxosa e opulenta a vosso lado no Brasil.

Nos dias se daqui se seguirão, para além de me irem parecer mais longos por não poder passar o meu dia a vosso lado junto à Praça e a conviver com os Condes e Nobres a fazer pouco dos mendigos e vagabundos, serei o braço direito do Rei. A Corte reunir-se-á para aconselharmos D. João V a proclamar guerra à Holanda ou não. Depois dessa reunião encontrar-nos-emos no Porto da Grande Lisboa quando o relógio da torre der as doze badaladas. Com as minhas negociações consegui um barco de mercadorias que nos levará até ao Brasil. Estaremos seguros.

Os camponeses e artesãos têm uma vida tão pobre, olho para o olhar de tais almas e penso: que vida que lhes foi calhar! Já nós temos no sangue a riqueza e o luxo, temos no sangue as armas, os trajes e tudo aquilo que queremos. O que eu mais quero agora é o vosso amor. Penso nas noites de amor que teremos no nosso castelo. Penso nos passeios que iremos dar junto à praia com o Sol a irradiar sobre a nossa pele. Penso que iremos poder estar juntos sem a Condessa de Bragança e o Conde D’Ávila. Seremos só eu e vossa excelência.

Com todo o meu amor e anseio pela viagem,

Conde de Bragança.

Como um camponês do Antigo Regime vê o rei D. João V

(Por Carlota Grilo e Henrique Quaresma)

 Conheci o senhor António durante um dos meus trabalhos de campo. Perguntei-lhe, por acaso, se era feliz. O senhor, cansado, já perto dos seus trinta anos, sentou-se. Consegui ver as suas mãos calejadas e gastas pelo trabalho árduo. Tinha a pele queimada do sol. O olhar estava vazio, e ao mesmo tempo, carregado de tristeza. Disse-me que era camponês desde os sete anos. Desde cedo teve de começar a trabalhar para ajudar a sustentar a família. Tinha mais dois irmãos mais velhos que iam com ele. Juntaram-se aos pais num terreno senhorial. O dono da terra, um Nobre que escondia a sua falência por detrás de colares e tecidos caros, era arrogante e tratava todos com malícia e superioridade. Obrigava-os a trabalhar nas horas de maior calor e até aos domingos. Não recebiam o suficiente para ter uma refeição quente por semana. Ficavam felizes com um pedaço de pão com queijo ao final do dia.

Um grupo de camponeses já se tinha tentado juntar para expor ao rei todos os seus problemas quotidianos, mas em vão. O senhor António mostrou a sua tristeza ao dizer que o rei não era para todos. Estava com aqueles que tinham o mesmo poder que ele, em riquezas. De tudo fazia para ainda enriquecer mais. Preocupava-se em não perder o dinheiro e aumentar o seu poderio e importância. Em vez de ser paternal, como assim jurara a Deus, esquecia-se dos que mais precisavam dele. Sabia que o rei estava informado da fome que muitos passavam e mesmo assim, não tomava qualquer tipo de medidas. Tentava manter o povo calmo atirando moedas de ouro para o ar, de vez a vez. Mas nada disso o fazia uma boa pessoa. Para o camponês, o rei era arrogante, despreocupado e egoísta. Vivia no luxo, com tanta pobreza à sua volta. Era vergonhoso. Não era assim que um líder devia atuar. Muitas pessoas sofriam face a esta posição desinteressada do rei pelo bem estar de todas as classes sociais do reino. No entanto, tinha esperança –  pudesse o seu sucessor ser mais atento e uma pessoa melhor.

Respondeu-se então que sim, tentava ser feliz. No entanto, tal como ele, eu ia sentir toda a injustiça deste mundo.

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