O Marquês e o Terramoto

Os alunos de História A do 11º ano foram novamente desafiados a caracterizar o século XVIII português a partir de uma visão da própria época. Assumindo-se como personagens de diferentes grupos sociais na Lisboa setecentista, imaginaram-se nos dias seguintes ao terramoto de 1755 e pronunciaram-se sobre os seus efeitos e, principalmente, sobre a polémica figura e ação do ministro do rei D. José I, Sebastião José de Carvalho e Melo, que viria a ser Conde de Oeiras e Marquês de Pombal.

Foi mais um exercício de criatividade assente no rigor histórico. Selecionaram-se quatro dos trabalhos apresentados, que aqui se publicam.

 

A terrível ideia da nova Lisboa

(Por Margarida Silva)

Querida Maria de Bourbon:

Nos meus sonhos ainda estás aqui ao meu lado, eu sentado no alpendre e tu a colher rosas do nosso quintal, num belíssimo dia de Sol. Infelizmente partiste sem mais nem menos, deixaste-me neste Mundo, fizeste com que os meus comentários sobre Sebastião de Carvalho e Melo passassem a ser monólogos. Porque partiste tão cedo? Contudo, escrever-te-ei eternamente sobre os meus dias depois de teres ido para o paraíso de tão boa moça que eras tu, Maria.

Hoje, dia 5 de Novembro de 1755, trago-te uma tragédia. O terror instalou-se na grande Lisboa. Deus castigou-nos, Deus está a punir-nos por não darmos valor à Igreja. No passado dia 1 deu-se um grande tremor de terra seguido de um sismo. Há incêndios por todas as ruas, há nobres, pessoas do povo, e até burgueses mortos na rua. O Padre Malagrida teve sempre razão. Porque não demos nós ouvidos mais cedo?

O pior ainda está por vir… Sebastião de Carvalho e Melo quer reconstruir uma nova Lisboa. Uma cidade totalmente nova para o ocidente. Ruas novas, praças novas, tudo pela catástrofe. Estou estupefacto. Porque não deixa ele a nossa querida cidade como era antes? Porque terá ele que fazer tudo à sua maneira e construir uma Lisboa que não existe? Para onde vai a nossa loja? Numa tão movimentada rua de Lisboa, que ia dar à Praça do Comércio, para onde vai agora? É certo que perdemos tudo com o desastre, mas isto assim não pode ser. Sou a favor da nossa cidade como ela era antes. Não precisamos de ruas mais largas, nem de ruas paralelas. Tudo funcionava bem antes deste terrível acontecimento. Eu sei que tu, minha amada Maria, estarias ao meu lado neste pensamento. Sempre concordámos que Sebastião não era ninguém, nos meus cálculos não chego a uma resposta para o nosso rei D. José I tê-lo nomeado para seu ministro. Mas assim o é… E será, e fará da nossa Lisboa uma Lisboa falsa.

Resta-me rezar e pedir perdão a Deus por não ter orado mais vezes e por não ter dado tanto apoio monetário na igreja enquanto pude. Vou continuar a ouvir o que o tão sábio padre Malagrida tem a dizer. Pode ser que assim nada de mal nos aconteça.

Desculpa só escrever agora meu amor, tem sido difícil devido ao estado caótico e aterrorizado do povo. Prometo dar notícias em breve.

Com muita saudade,

Filipe de Bourbon.

 

Página do Diário da Princesa

(Por Daniela Santos)

6 de Novembro

Real Barraca

Querido Diário

Hoje é dia 6 de Novembro e tenho algo muito importante e que ainda não tive tempo para contar:

No passado dia 1 de Novembro um tremor de terra fez-se sentir na cidade de Lisboa. As casas abanaram e caíram sobre os que não tiveram tempo para fugir. No rio, uma temível e gigantesca onda deu conta de todos os homens, mulheres e crianças que se encontravam junto ao porto e destruiu as construções mais indestrutíveis. Por fim, um incêndio propagou-se e desfez o que se manteve de pé. Não sei como isto aconteceu. Foi uma catástrofe. Felizmente eu e a minha família estávamos em Belém. Os duques e monarcas que conheço e sobreviveram ao ataque oraram três vezes mais nestes últimos dias, esperando que Deus perdoasse todos os seus pecados (e que pecados são esses… a nobreza desta época vive iludida com todo o seu luxo e riqueza e entretém-se nas suas paixões e traições).

Eu, por outro lado, não sei o que pensar. Costumava escutar atrás das portas do palácio as conversas que o papá tinha com Sebastião. No início não percebia o que se passava e sempre vi Sebastião como um controlador convencido, visto que este levava sempre a melhor do papá. Na verdade sentia-lhe um certo ódio, e como todos os meus amigos nobres e jesuítas falavam mal dele, nunca me questionei realmente em relação à sua integridade. Mas percebo agora que, desde início, Sebastião só está a fazer o que está certo. Que homem iluminado que é Sebastião! Instituiu em Portugal uma política pombalina, onde garante o poder absoluto de meu pai e melhora a nossa situação económica. Contudo, ele acha que o poder do papá deriva das suas capacidades racionais e não do Divino. E por isso não sei o que devo achar.

Ontem voltei a ir ao escritório do papá para ver em que é que Sebastião estava a trabalhar. Vi uma planificação diferente da praça do comércio onde as ruas são mais largas e as casas todas iguais. Sebastião diz que vai tornar a praça muito mais moderna e que haverá um dia em que as ruas serão estreitas de mais. A verdade é que é um homem de grande visão, e admiro-o e cobiço-o bastante. Nos seus tempos livres acompanha-me em passeios e já pousou a sua mão na minha perna durante um dos jantares reais em que se sentou ao meu lado. Ai que emoção!

Agora tenho de ir. O papá e a mamã vão dar uma festa e já consigo ouvir os coches a chegar.

Maria Francisca Doroteia

Infanta de Portugal

 

Carta de um letrado

(Por Marta Belo)

8 de novembro de 1755

Querido irmão,

Há sete dias atrás, houve uma desgraça: o mundo tremeu e os edifícios ruíram. Corpos inocentes e blocos de pedra encheram as estreitas ruelas e eu, pelo amor de Deus, consegui sobreviver. Estou, neste momento, sentado à minha secretária e rodeado de rascunhos para a minha próxima obra literária, o meu pé apoiado num pequeno banco. É certo, durante a desgraça caiu-me um bloco de pedra sobre o pé mas, devido aos cuidados propostos por um homem valente, de nome Sebastião José de Carvalho e Melo, estou em recuperação. A população portuguesa continua aterrada: uns pensam que tal cousa aconteceu por castigo de nosso Senhor, outros apresentam uma justificação científica, embora desconhecida. A minha pessoa acredita na primeira justificação, algo devemos nós ter feito para Deus nos censurar assim.

Sebastião José de Carvalho e Melo, a quem eu honro em algumas das minhas obras, foi o único homem que tomou o cargo de recuperar a nossa desgraçada cidade. Este se impôs a toda a população que queria reconstruir Lisboa tal e qual como esta se encontrava antes do castigo e, em conjunto com vários homens de Arquitetura, está a projetar uma cidade nova e capaz de se proteger contra qualquer castigo d’Ele. Embora, na minha dispensável opinião, o ser humano nunca se deva opor aos corretivos de Deus, penso que o nosso Sebastião de Melo tem uma pequena parte de razão ao decidir tal cousa. Mesmo que a minha pessoa não estivesse em concórdia com a sua decisão, nada poderia dizer, pois de nada me serviria. Sebastião José de Carvalho e Melo apresenta fama de ser Cabeça, de ser pessoa que faz o que quer, independentemente da população contrariada. E, embora este seja considerado um ser pouco religioso, não posso deixar de notar as suas fantásticas capacidades e inteligência.

Acabo esta carta com um desejo de boa sorte para ti, meu irmão, para que continues saudável e feliz ao viver na famosa França. Comunicarei contigo, mais uma vez, para te dar mais notícias sobre os acontecimentos desta desgraçada época e desta esperançada cidade, Lisboa, a tua localidade de nascença.

Saudades do teu irmão,

António José Ribeiro do Santos

 

Relato de um membro do Terceiro Estado

(Por Maria Alves)

Foi um dia inesquecível… Os gritos de pânico, o rosto desolado das crianças órfãs, a amargura dos pais cujos filhos partiram precocemente ainda permanecem na minha memória… Que tamanha devastação…

Tudo começou no Sábado, 1 de Novembro de 1755, dia de Todos os Santos. Decorria a missa quando, de repente, um som horrível vindo das profundezas da terra se começou a ouvir…, seguindo-se um forte e incessante tremer. Em pânico, todos nós começámos a correr em direção à zona ribeirinha, onde nos apercebemos das inúmeras casas demolidas pelos fortes abalos… E eis que, quando nos julgávamos em segurança porque longe dos edifícios, vemos uma grande onda a aproximar-se, arrastando consigo inúmeras pessoas e inundando as ruas da cidade até ao Rossio. Depois veio o fogo que se espalhou por toda a cidade, destruindo o pouco que restava. Parecia o fim do mundo…

Que tamanho milagre ter como governante alguém tão grandioso como o Marquês de Pombal, herói da situação que logo deu ordens para que se enterrassem os mortos e se cuidasse dos vivos. Ainda assim, foi injustamente alvo de calúnias por parte de invejosos e ingratos, como é o caso dos jesuítas.

Ainda as últimas réplicas se faziam sentir, e já o nosso santo Marquês de Pombal revelava a sua enorme eficiência, ordenando que se aprovasse um plano para reerguer a nossa grande Lisboa. Para tal, encarregou os engenheiros Manuel da Maia e Eugénio dos Santos de criarem um projeto de reconstrução da cidade, tendo decidido arrasar o pouco que resistiu para construir uma nova e mais segura Lisboa. Foi assim que, no lugar das labirínticas ruas, ruelas e becos surgiram ruas retas e largas, seguindo uma simetria rigorosa. Esta nova cidade de Lisboa distingue-se assim pela harmonia dos seus prédios, cujas fachadas em nada se diferenciam de forma a assegurar uma certa unidade. Refletindo o espírito desta nova época, dita das Luzes porque mais esclarecida, as novas habitações apresentam inúmeras inovações, entre as quais se destacam o novos sistemas de esgotos e uma nova estrutura de madeira que, embora pareça uma simples gaiola, consta que evitará a repetição de tamanha catástrofe.

Que Deus nosso Senhor proteja o nosso amado Marquês de Pombal, símbolo da grandeza de Portugal!

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